
“São cruéis essas tais lembranças. Nos transportam para um lugar que nos envolve em nostalgia, ao mesmo tempo que gritam em nossos ouvidos que jamais será tão bom”, Elisa pensava enquanto se preparava para dormir. Se olhava no espelho e enxergava uma mulher assim, como outra qualquer - sem efeitos especiais ou encantamentos -, com o corpo no presente, enquanto a alma vagueia livre e insistente pelo passado, como se pudesse transportar o corpo junto da mente e reviver cada segundo com uma companhia que há muito deixou de existir. Se escondeu em meio às cobertas, ainda sentindo um frio glacial preencher cada célula de seu corpo desamparado. Só queria um amigo, alguém à quem pudesse ouvir suas antigas histórias e participar de novas aventuras - aquelas que apenas um bom e insano amigo concorda em viver. Ela não era infeliz, não, longe disso. Sua vida era a estável… e solitária. Elisa não sonhava em viver um grande amor, tampouco ansiava ter um amigo à cada esquina dessa extensa e nublada cidade. Seu único desejo era ter um apoio, mãos para impedir sua queda, ouvidos para compreendê-la, e, se não for pedir demais, uma boa dose do bom senso que ela jamais terá em toda sua vida. Só tivera isso em seus sonhos. Lindos. Sorridentes. Mas jamais passaram de sonhos. Decidiu então que já tinha tudo o que precisava em seus sonhos. Fechou os olhos e foi levada à seu inocente e feliz mundo de ilusões.
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